1a Festa Eletrônica GLBTT em Camaçari

Por Carolina Motta
Foto: Carolina Motta
1603501649 A Pride Fest, primeira festa eletrônica destinada para o público GLBTT (Gays Lésbicas Bissexuais, Travestis e Transgêneros) de Camaçari, esteve no mesmo nível de eventos da categoria realizados na capital baiana. O evento que aconteceu no último sábado (6), no espaço CEMPET atraiu também heterossexuais e simpatizantes que curtiram a noite ao som de Oliver Jack, um dos mais conceituados DJ’s de Salvador.

Gente bonita, moderna iluminação e decoração psicodélica compuseram o cenário da festa. Além disso, a presença de Gogo Boy, Gogo Girl, performances de transformistas e striper feminino animou e divertiu quem esteve presente.

Na foto: As organizadoras e o DJ do evento

Para Karina Saldanha, uma das organizadoras, apesar de bem estruturada, a festa não obteve o volume de público desejado e atribui o resultado ao preconceito. “Tudo que foi planejado por mim e minha companheira Arlete Sales, foi executado, porém já esperávamos que haveria este déficit de gente. Mesmo assim nos preocupamos com a qualidade de todos os elementos que montaram a festa”, diz.

“A divulgação também foi boa e até em boates de Salvador panfletamos. O que eu acho que atrapalhou a presença do público foi mesmo o preconceito. As pessoas não estão acostumadas com eventos deste porte e para a comunidade GLBT, mas precisávamos dar início e esta foi a primeira de outras”, revela.

De acordo com Karina que pretende abrir uma boate gay no município, a festa que pretende entrar para o calendário dos eventos mais badalados da cidade, serve para ambientar a população. “Inaugurar uma boate para a comunidade GLS em Camaçari é um sonho meu e da minha companheira. A Pride serviu para mostrar que os homossexuais têm direito ao seu espaço, além de desmistificar a imagem da promiscuidade existente”, completa.

Segundo Carlos Silva, administrador ficou surpreso com o nível da festa, mas se decepcionou com a falta de público. “A própria comunidade gay da cidade não colabora, não acredita nos eventos realizados para nós mesmos e feitos por gente daqui. Eu adorei a festa, pretendo vir a outras e as organizadoras estão de parabéns”, conclui.

Fonte: http://www.camaçarinoticias.com.br

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O adolescente homossexual na dinâmica escolar

Por: Janaina Foleis Fernandes [JANAINA_F]

Esse artigo é parte de um trabalho de conclusão de curso para formação de psicólogo, cujo título é Relação da família com adolescentes homossexuais do sexo masculino.
Dentro do ambiente escolar o adolescente homossexual sofre com a dificuldade de encontrar grupos de iguais, além do preconceito e dificuldades de aceitação.

Quando encontram amigos na escola, correm o risco de perdê-los, pois geralmente os colegas são rotulados também como homossexuais e tendem a se afastar para evitar comentários e o preconceito por parte dos demais alunos da escola.

Segundo FARIAS(2004), é muito difícil ser julgado e condenado por um grupo. Diante de situações de não aceitação e exposição pública de seus sentimentos, o adolescente homossexual pode se deparar com sensações de inadequação e rejeição, provocando assim muito sofrimento e uma vontade de mudar sua condição homoerótica, que vem historicamente sendo definida como “anormal”.

Existe ainda uma dificuldade grande em admitir que homossexuais sejam normais e produtivos, além de uma dificuldade em entender pessoas com práticas sexuais diferentes das nossas (PINTO, 2002).
Segundo LOURO (2000), o medo de ser descoberto, as gozações permitidas e a censura insinuada ou explícita promove uma verdadeira segregação desses jovens, muitas vezes produzidos pelos próprios sujeitos, que sentem no isolamento uma forma de sobreviver.

Há a necessidade da escola atuar como um espaço de mediação e de acolhimento. FARIAS (2004) comenta que as relações no interior da escola, na maioria das vezes, não favorece à construção do sujeito e a criação de vínculos afetivos, tanto por parte dos alunos quanto pelos profissionais que trabalham na escola.

As relações de amizade e confiança estabelecidas na escola fazem parte da construção da subjetividade do adolescente. As dificuldades encontradas pelos adolescentes homossexuais dentro desse ambiente interferem diretamente na constituição de sua identidade, uma vez que a não aceitação faz com que esses adolescentes repensem sobre sua condição homossexual ou se marginalizem em uma tentativa de preservar sua condição diferenciada.
Há uma espécie de medo, onde a manifestação de simpatia ou a proximidade em relação aos homossexuais se constitui em um perigo. A heterossexualidade, embora percebida como uma inclinação natural, vê-se ameaçada e necessita ser assegurada por todos os meios (LOURO, 2000).
Dentro da escola, alunos e alunas não são sensibilizados a fim de serem solidários com seu colegas “diferentes”, sejam de minorias raciais, sexuais ou com necessidades especiais. Isso denota uma lacuna, uma marca que a escola legitima nas práticas pedagógicas ao não falar e criar uma invisibilidade sobre as diferenças (FARIAS, 2004).

A escola apresenta um papel importante no processo de socialização. É nela que os adolescentes passam grande parte do seu tempo e apreendem muito de seus valores sociais. É nesse espaço onde deveria haver um compromisso por parte dos profissionais em incentivar a aceitação das diferenças, uma vez que esse ambiente é freqüentado por uma vasta diversidade de pessoas, cada qual com suas questões, pensamentos, valores e desejos. Um ambiente que se faz plural pela singularidade dae cada individuo que a compõe, porém, o que se apresenta é o contrário, uma ambiente que faz cristalizar pensamentos e comportamentos preconceituosos.
É imprescindível aos profissionais da escola uma reflexão a respeito de tabus e convicções que possam existir sobre a sexualidade, para que não sejam meros reprodutores de discursos pensados sob a ótica anátomo-fisiológica, que os distanciam da sexualidade (FARIAS, 2004).

A associação da sexualidade ao prazer é deslocada em favor da prevenção dos perigos e das doenças. Nesse contexto que centraliza a reprodução, os homossexuais ficam de fora da discussão. A escola não contempla a possibilidade de uniões afetivas e sexuais entre indivíduos do mesmo sexo e muito menos a existência de famílias constituídas por gays ou lésbicas. A homossexualidade é negada, mas ao mesmo tempo vigiada (LOURO,2000).
A sexualidade que entra na escola, no currículo de educação sexual, está pautada na doença, problemas e perigos, totalmente desvinculada do prazer e da vida.

Apesar da maior visibilidade que se tem hoje sobre o tema, o preconceito permanece da mesma forma. Mesmo cientes da necessidade de se falar sobre a sexualidade em sua completude, a sociedade manifesta claramente o medo que sente da homossexualidade. Medo de que expor o assunto de maneira natural e positiva possa interferir na orientação sexual de crianças e adolescentes.

Sendo a escola uma instituição social que tem como função a formação de cidadãos, ela deve e pode iniciar a discussão sobre o tema. A escola deve ser fonte de conhecimento e desmistificação de tabus e preconceitos infundados.
Segundo PINTO (1999), chegamos em um momento histórico em que não faz mais sentido lidar com a sexualidade de forma velada; se quisermos um mundo mais maduro e mais esclarecido, não se pode dar preferência ao implícito em detrimento das explicações referentes à sexualidade.

A escola se apresenta ignorante quando não aprofunda tais questões, não adianta falar sobre o assunto se a forma de apresentá-lo estiver carregada de preconceitos , sem um preparo do profissional que se dispõe a falar.
O currículo escolar apresenta um silenciamento sobre a condição homossexual, que se manifesta em uma abordagem parcial da realidade, no estabelecimento de um tipo universal de sujeito (FARIAS, 2004).

A escola, juntamente com a família, se organiza de forma a “garantir” a formação de indivíduos heterossexuais (LOURO,2000).

Hoje o modelo escolar contribui para o silêncio e dissimulação de comportamentos homossexuais ], fortalecendo assim as crenças familiares.
O debate sobre a queda de tabus e preconceitos é uma forma de explicitar a sexualidade em sua amplitude dentro da escola, permitindo, dessa forma, que as diferenças apareçam e sejam encaradas com naturalidade, além de formar novas gerações sem preconceitos e melhor informadas.

Cláudia Leite não quer um filho gay

Milton Cunha, Porto da Pedra
Opinião

Rio de Janeiro 1/12/08 – Curto e grosso: Cláudia Leite não quer um filho gay como eu, porque gay sofre muito. Sem problemas, eu também não quero uma filha gonçalense imitando baiana, clone eterna da original e verdadeira estrela morena, de quem ela será para sempre, sombra. É que este tipo de menina hetero sofre muito. Bobagens à parte (o que atesta o nível de inteligência da argumentação), o fato é que querer filho gay, independente do nível intelectual, ninguém quer. E como não tem explicação plausível, é só preconceito mesmo, recorre-se as mais mirabolantes fórmulas de explicação. Exemplo: eu, Milton, não quero ter filho pedófilo nem espancador de mulher, nem “maníaco do parque”.
Como eu explico isso? Eu odeio esta gente, acho psicopatia deplorável. E, sinceramente, ela acha gay deplorável, porque só pode ser gerado na barriga das outras. Ainda na argumentação dela, o sofrimento gay, você conhece hetero que não sofre muito? Deus, os leucêmicos, os miseráveis infelizes no casamento que passam a vida a fingir, os sem-grana em condições desumanas de vida, os existencialistas que acham a condição humana um inferno?
O problema é querer tipificar nós gays com um sofrimento exclusivo, isto é tolice. Nosso sofrimento é a burrice humana que, hipócrita, acha que nosso sofrimento é maior que, por exemplo, o das mulheres hetero, grupo extremamente marginalizado pelo machismo irracional que as escraviza em dependência econômica doméstica. Com certeza nós gays, sofremos. Mas o que dizer de vocês, heteros, nesta carnificina à qual vocês se submeteram?
Tudo certo, tudo bom, vocês são os maiorais. Mas chegará o dia do juízo final, quando à vocês será cobrado justiça e amor, e não julgamentos de dar ou comer. Sofremos por estar neste tiroteio e pronto, como todo mundo. Também sofremos por nos sabermos indesejados por nossas mães (isto sim o tiro de misericórdia em nós). Porque o vizinho nos indesejando? Sinceramente, cagamos pra isso. Queremos é ser criados com afeto e noção de amor paternal, para depois, crescidos e gays amados pelos familiares próximos, irmos em frente dizendo: “não vem bancar pra mim o hetero resolvido que nós, gays, também viemos de uma família hetero e sabemos que só muda de endereço, meu bem!”.
Eu, feto gay, repudio tuas considerações. O que faz um feto quando se sente indesejado?
Se auto-aborta? Continua a gestação e parte para a luta? Fico pensando no sentimento dos fetos gays, que ouvem suas mamães dizerem “não desejo que meu filho seja gay porque vejo o preconceito que meus amigos gays sofrem, e isto não é nada bom”. Eu, feto gay, um dia declarado por minha mãe nestas bases de raciocínio pouco generoso e mandão que agora Cláudia encarna, só posso dizer que abandonei-a assim que pude. Porquê que minha mãe nunca me perguntou se mesmo gay, eu era capaz de uma amor imenso? Na sua torcida de não acreditar que eu era gay, minha mãe passou por cima da minha imensa capacidade de amá-la.
Sempre a vi só como uma mulher mãe que gostaria de fazer desaparecer em mim minha homossexualidade. Mas eu só queria que ela entendesse que, independente de macho, gay, ou fêmea, as criancinhas são lindas porque nelas o universo se revela encantador e esperançoso. Mas não adiantou de nada. Elas só queria saber se eu daria ou comeria. Agora que ela está morrendo e pede para eu perdoá-la, só consigo pensar que a desgraça não é a morte dela, é eu ter sobrevivido à isto tudo.
Mais fácil é bater as botas e dificílimo é continuar vivendo e ter que pensar em tanto desamor. Quantas mais terão que ser abandonadas pelo seus filhotes, porque serão mães que acham que tem o direito de legislar sobre o desejo do filho? Cláudias Leites-mamães à parte, é preciso ser Miltons Cunhas-filinhos, para falar de um outro ângulo, de uma outra visão. Indesejados, nascemos com este desejo homossexual, que não orgulha mamãe nem papai, e na explicação tosca deles, para o fato de não terem orgulho de nós, olhamos incrédulos para os imbecis genitores, com cara de “sinto muito, é isso e pronto, só me resta viver e morrer gay”.
Não adianta ir bem no colégio e tirar boas notas, não adianta ser bom menino, pois ainda assim alguns pais nos pedem (ou obrigam) a disfarçar, e parece que a hipocrisia os satisfaz mais que a verdade de transarmos com o mesmo sexo, felizes e realizados. Quem são estes senhores e senhoras que nos aniquilam, que em nome de uma proteção maternal e paternal, querem que não sejamos o que nascemos para ser? E pior que isto, torcem por tal ou tal sexualidade, como se isto fosse direito deles. Somos seus filhos, portanto universos independentes, e só cabe à nossos genitores, a torcida pela nossa felicidade. Em vez de declararem “quero meu filho pleno, bom caráter, capaz de um amor imenso”, tudo o que conseguem declarar é “ai, não, gay não, e não é por preconceito, não, é por pena do que eles sofrem!”.
Saiu de moda o antigo e assumido “prefiro assaltante que viado?”. Achava melhor esta frase. Escrevo tudo isto de madrugada, depois de encontrar Márcia Lávia, carnavalesca do Império Serrano, e, ao me apresentar seu filho gato adolescente, na festa de lançamento do cd dos Sambas de Enredo, na Cidade do Samba, quando elogiei o garoto pela beleza e por parecer descolado, a mãe declarou, em alto e bom tom, orgulhosíssima, “não, este é macho!”. E aí parei para pensar: “quantas mães gritariam aqui sobre o filho não macho, o gay?”.
Nenhuma. Macho significa a resolução da dor. Vai comer todas e portanto será bem resolvido, bacana. Se gay fosse, iria passar por todo o calvário que todos os gays amigos destas mães passam. Mas vem cá, não é um calvário ser apresentado pela mãe orgulhosa como macho? O que isto subentende?
O que isto embute? Deus que me livre ser macho nesta terra de machos pit-boys que espancam humanos em boates, que puxam os cabelos das meninas com uma indelicadeza dignas de brucutu. Será que é o raciocínio destas mulheres que tem levados seus meninos à esta monstruosidade de comportamento com as fêmeas?
Portanto, aproveito esta coluna, para dizer para a deslumbrante mulher (e não a artista) Cláudia Leite: não espera daqui à sessenta anos para pedir perdão para teu filho.
Assim que ele nascer, bate a descarga em todas estas tuas declarações, e, a cada dia, reafirma teu amor incondicional e teu apoio à mais plena realização que um humano pode almejar, que é ter caráter, ter espírito fraterno e saber que, transando com árvore, parede, periquito ou papagaio, a grande viagem humana é, através da própria vida, libertar o espírito dos tolos preconceitos que tentam nos reduzir à meros orifícios. A alma não é pequena, e, portanto, tudo valerá à pena.
Mãe é aquela que pede saúde e paz para sua criança. O mais, pertencerá ao insondável território do desejo. Inclusive daqueles desejos que dizem ser Ivete Sangalo a única, original, definitiva e verdadeira bombshell baiana. Tudo mentira. Tem espaço para tudo e todos. Até para os não desejados. Que a Nossa Senhora do Bom Parto te proteja, querida. Mesmo que ela seja gay, ou hetero, ou preta, ou índia! – Publicado originalmente no Jornal O DIA, RJ.

Fonte: Grupo Gay da Bahia

Minha nada mole vida

Por M.C.* (nome do autor da postagem reservado)

problog2 Chamo-me M.C. Tenho 28 anos. Ao assumir para mim mesmo minha condição sexual, Há mais ou menos dez amos atrás, não sabia eu o quanto seria e é difícil viver em Salvador como homossexual. Dificuldade maior ainda pelo fato de ser alguém vindo de uma família extremamente conservadora, com tradição machista de homens com várias mulheres e é cultuado o repúdio aos homossexuais, sejam eles gays ou lésbicas ou qualquer coisa parecida.

Desde muito novo já sabia que havia algo estranho em mim, porém hoje, aos 28 anos, penso que minha dificuldade em me assumir tardiamente, aos 19 para 20 anos, veio muita de uma educação repressora. Porém ao mesmo tempo não posso e não devo culpar meus pais por nada, pois eles também são frutos de toda uma contextualização cultural familiar. A questão foi que mais ou menos com essa idade, meio que resolvi viver tudo o que não tinha vivido até então, o que poucos anos depois que fui ver que era mera perca de tempo. Pois ele, justamente o tempo, já havia passado e precisava sim viver, mas viver o presente.

Outra dificuldade maior que penso, deve ser de muitos jovens que passam ou passaram pelo mesmo problema do que eu, foi o fato da inexperiência e sede em querer saber muito e mais a qualquer custo. Muitas das situações vividas quase me custaram a vida. Durante esses quase dez\ anos, me expus e exibir em Boates de Salvador, passei pelas mais variadas camas e não só em camas, como moitas também, praias, etc…

Há alguns anos atrás cheguei a ser confundido com garoto de programa pois andava sem camisa na orla de Salvador, o que me custou um dente quebrado, um murro no olho e vários hematomas pelo corpo. Na época a desculpa utilizada foi que “Fui assaltado, do nada, três caras me pegaram e levaram tudo”. De certo que o local onde trafegava era e é até hoje próximo a um dos locais conhecido como “local de pegação” da galera, principalmente aqueles que se dizem “não gays”.

O que eu aprendi com isso tudo foi a encarar a vida com muito mais responsabilidade apesar de ter me tornado uma pessoa muito mais cética com relação as situações, porém ainda esperançoso em um dia onde todos tenham os mesmos direitos, independente de sua opção sexual, cor, raça, gênero ou seja lá o que for…e que essas mesmas pessoas, acreditem nelas mesmas, que podem ser felizes, construírem um história e encontrar um amor verdadeiro…eu ainda espero o meu.

Parada Gay de Arembepe frustra participantes

Por Carolina Motta

materiagls A III Parada do Orgulho Gay de Arembepe, a segunda realizada em Camaçari durante o ano, foi considerada “fraca” pelos participantes que estiveram na Praça dos Coqueiros, por volta das 16h deste domingo (23).

A organização tardia do trânsito, a falta de um trio-elétrico e do direcionamento de roteiro tornou a celebração da diversidade em um amontoado de pessoas. Aos desavisados, não havia o que apontasse o intenso fluxo de gente como um movimento GLS, exceto pela presença de algumas poucas bandeiras com as cores do arco-íris, símbolo da categoria.

Porém, apesar dos contratempos, os veranistas, nativos e integrantes da comunidade GLBTT (Gays Lésbicas, Travestis e Trânsgeneros), não se deixaram desanimar. Uma banda de sopro e um carro de som improvisado fizeram a animação até mesmo das crianças que estiveram presentes. A performance dos transformistas e travestis contagiavam aos que assistiam ao “desfile” e prendia a atenção dos que apenas transitavam.

Patrícia Reis, 34, funcionária pública, ficou decepcionada. “Já assisti a outras paradas e foi a primeira vez que participei da de Arembepe. Por ser numa localidade querida pelos visitantes, além de fazer parte de Camaçari, o evento teve um perfil decadente e desorganizado”, diz. “Será que para as autoridades que freqüentam e até moram no distrito, a causa GLBTT não tem importância?”, questiona.

Para Marcelo Cerqueira, presidente do Grupo Gay da Bahia (GGB), faltou incentivo do poderes públicos. “A parada de Arembepe é uma das mais elegantes e tranqüilas da Região Metropolitana de Salvador e neste ano não teve o mesmo brilho, o que acabou frustrando a expectativa do público”, relata. “Creio que a ausência de apoio tenha sido o maior empecilho”, completa.

Segundo Paulo Paixão as Paradas do Orgulho Gay de Camaçari devem entrar para o calendário oficial do município. “As paradas não são carnavais, são manifestações para promover políticas públicas para os homossexuais, porém como forma de celebração”, afirma. “Acredito que não houve suporte por parte do governo por conta da crise econômica mundial”, conclui.

Camaçari não acompanha crescimento do mercado GLS no Brasil

Por Carolina Motta

Investimentos em turismo, moda, entretenimento, hotelaria e moradia exclusivamente para gays têm crescido em todo país. O aumento das opções se deve a sensibilidade do mercado, em perceber o grande potencial de consumo da comunidade GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros). De acordo com a Associação Brasileira de Turismo para gays, lésbicas e simpatizantes (Abrat GLS), 9,4 milhões de homossexuais economicamente ativos no Brasil dispõem de um potencial de consumo de 75 bilhões de reais por ano.
Em Salvador, além da Parada do Orgulho Gay, maior evento homossexual da Bahia que acontece anualmente, é notório o crescimento de bares, boates e espaços que acolhem o público, dispondo de boa comida, shows musicais e performáticos. Os empresários buscam sofisticação e novidade como atrativos para conquistar a categoria.
No Município de Camaçari, não existem serviços, principalmente lúdicos que atendam às necessidades dos gays. A comunidade conta apenas com Grupo Gay de Camaçari (GGC), que disponibiliza uma biblioteca na sede da entidade, composta por literatura gay, além de prestar esclarecimentos referentes à saúde e diretos humanos voltados para os homossexuais.
Para Jaciara Costa, 37, a falta de opções de entretenimento para os gays é uma realidade. “Camaçari tem potencial para acomodar bares destinados para a comunidade gls, até porque tem público para isso. Os empresários da cidade precisam perceber o nosso potencial de consumo e investir nisso”, declara. “É muito dispendioso nos deslocarmos para Salvador apenas com o intuito da diversão”, completa.

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Um dia de Travesti

Por: Vanessa Nédia, Marcus Carvalho, Diego Porto e Vilma

“Me escondia de meu pai para que não percebesse o que eu fazia com meu corpo.Um dia ele me viu levantando da cama, sem querer viu meus seios já crescidos ,rasgou minha blusa para não ter duvida do que estava vendo e em seguida me colocou para fora.” Foi assim, com os olhos cheios de lágrimas e visivelmente tensa, que a travesti Pamela Close, como é conhecida na noite de Salvador, descreveu todo o preconceito sofrido por ela desde muito nova. Queríamos passar um dia inteiro e ver quais são as dificuldades e situações no seu dia-dia. Marcamos de nos encontrar no shopping Iguatemi um dos mais movimentados da cidade. O primeiro contato foi aparentemente normal até o integrante de a equipe chegar com toda intimidade e um cumprimento bem sinalizador “E ai amiga, poxa você está um arraso, amei a bolsa!” disse Diego. Conversamos na praça de alimentação e Pamela abriu seu coração. Com seu jeito peculiar de falar foi descrevendo sua vida da infância até a adolescência. Ficamos abalados com as revelações e foi esclarecedor para entender o mundo dos travestis. Este sofrimento normalmente vem acompanhado do preconceito social e da violência por parte de grupos homofóbicos, o que justifica o alto índice de homossexuais, incluindo travestis assassinados todos os anos na Bahia e no Brasil.

Na metade do século XX o travestismo era considerado crime, porém hoje as travestis já podem andar pelas ruas mesmo que ainda não sejam totalmente aceitas no convívio social. Na sociedade, existem regras que tem como função orientar e enquadrar os indivíduos em seus padrões de comportamento. Alguns países já incluem os travestis dentro desses padrões sendo considerados cidadãos normais. Na Suíça, por exemplo, as transexuais podem mudar o nome em seus documentos oficiais.

Assim como Pamela Close, diversos homossexuais brasileiros sofrem preconceito e discriminação ao optarem por adotar uma personalidade feminina, vindo a se travestir, o que aumenta também o índice de casos de violência sofridos contra essa parcela da população.

No nosso encontro pedimos a Pamela para passearmos com ela e seus 15 cm de salto pelo shopping. “Claro vamos agredir tudo, e tem mais vou te levar nas boutiques onde me produzo.” aceita Pamela. Suas condições é a das melhores, pois, a primeira loja que entramos era de grife. “Oi meninas! O que tem abalando aqui.” rir Pamela. A compra de um vestido e um cinto custou nada menos que R$ 389,00 e satisfeita sai da loja. Sua presença nos corredores e lojas não passas despercebida, as variadas formas de curiosidade, ou até meso preconceito. “Já estou acostumada, foi isso que eu escolhi e tenho que relevar esse tipo de situação desconfortável” relata Close.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), no ano de 2007 no Brasil foram assassinados 122 homossexuais e travestis, sendo um a cada três dias. Um aumento de 30% em relação ao ano de 2006. Desses assassinatos 70% gays, 27% travestis, 3% lésbicas.

Ainda de acordo com a pesquisa, no Brasil, o risco de uma travesti ser assassinada é 259 vezes maior do que um gay, sendo que o estado da Bahia foi considerado o estado mais violento, com 18 assassinatos e o Nordeste a região mais perigosa: um gay nordestino corre 84% mais risco de ser assassinado do que no Sul e Sudeste. A maioria das vítimas tem entre 20 e 40 anos. Predominam entre as vítimas, as travestis profissionais do sexo, professores, cabeleireiros, ambulantes.

Os olhares e buchichos eram muitos e não paravam de surgir, alguns até apontavam e davam risadas. Até para nós que estávamos acompanhando a fonte era desagradável. Ao mesmo tempo em que isso acontecia, Pamela parava e falava com quase todo mundo notava-se que era uma pessoa de boa relação interpessoal. Sua vaidade excessiva cobra de sua renda mensal quase R$ 2.500,00, por isso não demoramos muito lá ela já tinha uma hora marcada no esteticista na Barra.

Fomos de carona no seu carro de marca estrangeira e muito bem equipado. No caminho Pamela contou fatos que aconteceram em sua vida e até mesmo as marcas físicas e psicológicas deixadas. Pamela relata que realizou uma cirurgia na panturrilha, numa clinica clandestina onde não morreu por pouco. “Peguei uma bactéria e fiquei meses internada. Hoje tenho a responsabilidade de procurar um bom profissional”, esclareceu a travesti. Mostrando o local da cirurgia, com certo ar triste e emocionado, como se naquele exato momento rememorasse todo o período de internação que passou no hospital até se recuperar totalmente da infecção.

No meio do caminho, Pamela Close, já aparentemente um pouco mais calma e a vontade. Apesar de estar agitando freneticamente os cabelos para um lado e para o outro, explicou que atualmente se acha vitoriosa e o espelho para outras travestis e se considera uma pessoa feliz por possuir as formas que sempre desejou. “Passei por vários procedimentos cirúrgicos, fiz nariz três vezes, afinamento facial, silicone nos lábios, depois me arrependi e tirei a dos lábios” acrescentou a travesti.

Quando começou a tomar hormônios à primeira mudança que notou em seu corpo foi o desenvolvimento dos seios. “Eu ia á praia de camiseta enquanto a maioria dos meus primos ficavam sem camisa e usavam sunga,” explicou. “Me escondia de meu pai para que não percebesse o que eu fazia com meu corpo.

Não só o preconceito marca a vida das travestis, mas a dificuldade de se ingressar no mercado de trabalho. Muitas por não completarem os estudos devido aos preconceitos enfrentados dentro da própria escola e até pelos próprios educadores, vão para as ruas onde, para sobreviver, são obrigados a deformar seus corpos e vendê-los a qualquer preço. Por serem alvos de playboyzinhos, clientes violentos e até da própria polícia, são obrigados muitas vezes a agir como marginais, aprendendo a manejar o estilete para se defender dos que insistem em ameaçá-las.

Em virtude disso o número de travestis que chegam a entrar numa faculdade, trabalhar como professores ou gerente comerciais, por exemplo, é bem inferior ao número de travestis que exercem a prostituição. Segundo o Presidente do GGP, Marcelo Cerqueira, enquanto os gays são assassinados, sobretudo dentro de casa, a facadas ou estrangulados, os travestis em sua maioria são executadas na rua, a tiros e também por motoqueiros. “Com relação aos assassinos, 80% deles são desconhecidos e 65% são menores de 21 anos” ressaltou Marcelo Cerqueira, acrescentando ainda que o Brasil seja o campeão mundial de crimes homofóbicos, com mais de 100 homicídios por ano, seguido do México com 35 e Estados Unidos com 25.

Assim chegamos ao salão, Pamela nos apresentou a todos e iniciou em uma cabine sua depilação semanal, “Faço tudo perna, barriga, braço, bigode as partes intimas… tudo que tiver algum rastro de pêlo, por isso faço a laser para diminuir” diz a travesti. Em meio da sessão perguntamos: Como consegui viver com um poder aquisitivo tão alto? Sem exitar contou sua história profissional desde que era adolescente e saiu de casa. Segundo ela, devido ao preconceito social que a impedia de se inserir no mercado de trabalho, viu-se obrigada a se prostituir na orla de Salvador, mais precisamente na praia de Patamares.

“Passei noites e noites, sendo obrigada a fazer coisas que nuca quis fazer, como experimentar drogas, para satisfazer os clientes que afinal de conta estavam pagando” relatou ela, com certa tristeza no olhar. Sofreu agressões por parte de outras travestis por inveja e passou a viver como animal em busca de sobrevivência mendigando por sexo barato.

Nessa busca pelo corpo perfeito, os travestis recorrem muitas vezes a clínicas clandestinas e falsos cirurgiões com promessas de um corpo belo e feminino, até chegar ao ponto de fazer aplicações de silicones industrial o que vem a causar deformidades no corpo causando danos irreversíveis à saúde quando não as levam a óbito.

Logo após a sessão de depilação foi o momento de cuidar de seus cabelos e unhas. Perguntamos a ela se ela se produz toda semana e se esse custo compensa. Ela gritou “Claro!” prolongando a voz, os clientes pagam bem e por isso eles querem coisa boa. Qual a faixa etária de seus clientes? “Pode-se dizer que maduros, mas têm jovens também” afirma Pamela. Todos os funcionários do salão se divertem com o jeito irreverente e conquistador. “Adoramos a presença dela aqui, nos traz alegria” diz Guel seu cabeleireiro.

Nos bastidores juntamente com Diego ela relatou algo surpreendente. “Eu tomo muitos cuidados para manter o corpo e a estética feminina um deles é ter gozar apenas uma vez por mês, porque libera excessivamente o hormônio masculino e acaba com minha produção” relata. Após todo o retoque de beleza fomos convidados a percorrer por alguns pontos de prostituição onde ela já tinha trabalhado. Carlos Gomes foi o local escolhido, ficamos apreensivos, mais queríamos ver de perto todo esse conflito dos homossexuais. Já era noite e não foi difícil encontrar nos pontos estratégicos e delimitados por elas mesmas.

Antes de encostar o carro Pamela foi explicando o ambiente, as técnicas e conhecia muitos daqueles travestis. Paramos em frente a um travesti de mais ou menos 1,90m lábios carnudos de cor berrante roupas pequenas e insinuantes e um salta de quase 12 cm. Pamela cumprimenta a conhecida “Oi menina, e ai? Trouxe uns colegas para te entrevistar, querem saber do babado todo” sorrir as duas. Ela responde “Já disse que nada é de graça, mas estou vendo que tem uns do babado ai né?”.

Na Avenida Carlos Gomes perto de um bingo, que funciona ilegalmente, ela se acha dona de tudo essa é Skarlet Horrara de 29 anos. Na conversa sentimos a diferença nítida de uma para outra a forma de falar, se vestir, tratamento físico. Perguntamos quantos clientes ela conseguiu ao dia, ela respondi, com um ar de desânimo “O movimento está fraco, mais dá para tirar uma mereça, antes um do que nenhum”. Perguntamos também quais as modificações que ela tinha feito do corpo. “Tomo meu suco ‘GAMI'” (hormônio) que me deixa assim gostosa, já apliquei um produto similar a silicone na boca, peito e perna” afirma Skarlet. Pedimos um resumo da trajetória dela da adolescência até como atual prostituta.

Natural de Salvador, Skarlet nasceu como Antônio Carlos Nascimento, registrado com o sexo masculino e cinco irmãos. A sua infância foi muito difícil, marcada pelas dificuldades financeiras e problemas familiares. Ainda criança, foi adotado pela avó materna e nunca conheceu seu pai. Quando tinha 16 anos começou o processo de transformação de seu corpo, pois se achava infeliz em ter uma identidade que não era a sua tendo aprendido desde cedo que o homem era feito para a mulher e a mulher feita para o homem. Insistiu por esse sonho, começou a tomar hormônios para assumir as formas femininas, em meios as dificuldades que enfrentava foi deixando sua identidade masculina de lado e incorporou o travesti Skarlet Horrara. Porém Skarlet, como gostava de ser chamada, não sabia que sua vivência e expressão sexual seriam reprimida de uma forma tão violenta. Por duas vezes foi agredida por grupos de homens que assumia não gostar de gay e travesti sofrendo serias lesões no corpo e no rosto.

Na escola onde estudou foi descriminada por colegas e parte dos educadores, a pressão foi tanta que nunca conseguia chegar ao final do ano letivo, parando os estudos na 8ª serie do ensino fundamental. A partir daí teve alguns empregos mais nada muito certo nem que sustentasse suas dívidas. “Estou hoje aqui por necessidade, mas sempre que posso procuro sair daqui” emocionada relata.

Saímos de lá e fomos a casa de Pamela, com muita paciência ela nos mostrou como ela entra em contato com seus clientes e como funciona a rede de pedidos. Seu computador se tornou sua grande ferramenta de trabalho e com ele os contatos são confirmados. Além de seus celulares que dois deles são particulares para receber propostas e telefonema da rede. O que seria essa rede? São contatos entre as travestis e empresários que encaminham os clientes de acordo com afinidades e gostos. “Essa foi a melhor coisa que me aconteceu, tenho segurança no meu trabalho e só me envolvo com pessoas de alto escalão” diz Pamela. Não poderíamos saber qual eram os nomes até porque seria mais uma informação que poderia nos reder uma grande reportagem ou até mesmo uma matéria investigativa.