Lugar (In)Comum

Por: Avany Barreto, Deyse Reis, Fulvio Oliveira, Gabriella Troccoli, Grace Kelly e Jenise Oliveira

Na frente da Travessa Cerqueira Lima, os ambulantes montam suas barraquinhas e vendem de balas de goma a salgados como kibe e coxinha. No mesmo local, garotas se abraçam com muita sensualidade, por entre os táxis que ali estão estacionados. Localizado no Garcia, próximo ao Teatro Castro Alves, o lugar é conhecido como Beco dos Artistas. Na entrada, jovens fumam maconha liberadamente e no mesmo espaço, outros freqüentadores do mesmo sexo, se agarram e se beijam como se não se importassem com os olhares alheios.

Fugindo do estereótipo tão maciçamente impregnado do homem gay, jovens de terno e gravata e tão arrumados como se saídos de uma reunião de negócios, se misturam a rapazes trajando somente bermudas jeans desfiadas, no intuito de deixar a mostra o abdômen trabalhado. Uma bela mulher que figuraria tão bem em shoppings da cidade, desfila e se desequilibra nas sandálias de salto alto em meio a calçadas desniveladas, desatenta ao alvoroço que causou ao entre um grupo de amigas ao passar pelo local.

A jornalista Driele Veiga relata, entre gírias LGBTT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transgêneros), que adora o beco dos artistas. Ela conheceu o local depois que estava procurando um lugar para beber com os colegas da faculdade. “Adoro o Beco, recebi até um apelido de um “viado” lá, o nome que ele me deu foi: Aisha Monange Monelly”. Mas nem só de adoração viveu a jornalista, ela conta um fato que a deixou decepcionada, “Apareceu um gato que eu não conseguia tirar os olhos, todo com pose de homem, lindo mesmo, aí o cara que tava com ele percebeu veio até a mim e falou: tire o olho que é meu! Fiquei “passada” com aquilo” conclui com expressão perplexa.

Um ambiente a meia luz, entre poças de águas e pequenas quantidades de lixos espalhados pelo chão, fazem parte do cenário do Beco, afinal lá tudo é diferente. Longa em seu comprimento e estreita na largura, oito bares habitam aquele pequeno e irreverente universo – Cada um com suas devidas peculiaridades!

O primeiro botequim à direita toca pagode e a cerveja tem seu preço promocional, o que acaba por atrair um público mais popular. O próximo, na mesma direção, é mais intimista com direito a oscilações de músicas no estilo Dance e MPB. Em seguida, o outro parece um boteco localizado no bairro do Rio Vermelho, é aberto e exibe DVDs que vão de axé a MPB. Do lado oposto, o primeiro bar à esquerda possui três ambientes distintos, iniciando um com luz baixa, sem som e com direito a muita conversa.

Sem nenhuma interrupção na estrutura, o próximo tem o mesmo estilo, porém tem um telão exibindo o tempo todo vídeos de Madonna, Britney Spears e Kylie Minogue. Em seguida, o outro ambiente tem um enorme puf, chamariz para os casais, que se deitam no acolchoado para trocarem beijos ou apenas terem um agradável bate-papo. Nas mesas, a iluminação também baixa e centralizada deixa um ar de mistério e sedução. Duas mesas e nelas dois rapazes vendem pulseirinhas de acesso a uma boate, chamada Camarim. Lá dentro, após passar pelo segurança, pessoas de todos os tipos dançam euforicamente ao som de músicas eletrônicas e jogo de luzes. Entre uma seleção musical e outra, dançarinos profissionais como gogoboys, gogogirls e transformistas animam o público. Em dois cantos do espaço encontram-se uma mesa de sinuca, no fundo, um barzinho americano vende de tudo: bebidas, cigarros e doces. Mesas e cadeiras são disponibilizadas e casais riem, conversam ou até mesmo trocam carícias mais íntimas, nada que fuja do cotidiano daquele lugar.

A estudante universitária Juliana Souza, 22 anos, não é freqüentadora assídua do local, mas estava lá com um grupo de amigos.”Existem lugares mais interessantes para o público gay em Salvador que o Beco dos Artistas” diz a estudante. “Aqui a pegação é mais escrachada, como se as pessoas realmente quisessem mostrar o que estão fazendo. Nada mau em você querer demonstrar afeto, porém muita gente aqui parte pro exibicionismo” explica.

Entre uma tacada e outra na mesa de sinuca, Juliana explicou a relação dela com o homossexualismo, “Se você me perguntar se eu sou lésbica, eu direi que sim, eu sou. Mas a verdade é que isso não me deixa isenta de sentir falta da figura masculina”. Juliana já teve namorados homens, mas foi uma amiga de faculdade que a apresentou ao universo feminino. A relação amorosa durou três anos e serviu para que a estudante abrisse o leque quanto às opções sexuais. “Hoje em dia eu namoro meninas, mas isso não me impede de vez ou outra, ficar com antigos namorados” conclui.

Em todos os locais, os avisos na frente dos banheiros são meros enfeites. Em um ambiente tão liberal quanto o Beco dos Artistas, a indicação de banheiro feminino ou masculino passa despercebida entre os freqüentadores. Não só isso, o ambiente “banheiro” acaba também tomando outra conotação dependendo das intenções dos usuários. Não raramente barulhos serão escutados dentro das cabines que logo em seguida serão esvaziadas por casais, ou até mesmo grupos de amigos. E enquanto estes abotoam a camisa ou consertam a altura da saia para voltarem para suas respectivas mesas, escutam comentários como “Nisso que dá não ter grana pra pagar o motel”.

Entre risadas e muita fumaça, um grupo de amigos – todos fumantes – conversa no fundo do bar. O lugar mais afastado do barulho infernal das caixas de som possibilita um melhor entrosamento, assim como a falta de claridade permite ao comerciante Wendel Batista se aproveitar da distração do namorado para beijar o outro companheiro de mesa. Não que isso seja problema para eles. Wendel justifica a falta de ciúmes “Isso não existe entre nós, antes de sermos namorados, somos amigos e bem resolvidos. Quando o tesão bate a gente se pega e sempre foi assim”. O companheiro ainda completa: “Tá bom demais assim, é mais gostosa a relação sem cobrança!”

O tráfico de drogas também é intenso, não para um segundo, enquanto se bebe e conversa o comércio é constante sem nenhum constrangimento ou precaução, demonstrando a sua normalidade.

Diante de todo esse cenário, um senhor caminha a passos rápidos por entre casais e rodinhas de amigos. O homem anda ligeiro entre os transeuntes, enquanto puxa uma menina de aproximadamente sete anos. A pressa que esta pessoa demonstra em sair do local talvez tenha a ver com a preocupação em tirar a menina daquele ambiente. Ela segura o saquinho de pipoca contra o peito, como se tivesse com medo de derrubá-lo ao caminhar tão apressadamente e em poucos segundos eles se dirigem para a parte mais deserta do Beco, local este em que é localizada uma pequena vila fechada com grandes portões de metal e cadeados, talvez como forma de impedir o acesso dos freqüentadores do local. A bagunça se encerra onde esses portões se iniciam.

A moradora Roberta Rodrigues explica que o que incomoda os moradores não é a movimentação noturna ou o fato do público ser LGBTT, e sim o que acontece no local. “Apesar de ter dias como nos finais de semana que chegamos a levar quase 15 minutos da entrada do beco até o portão que dá acesso a minha casa, o que realmente incomoda é que muitos dos freqüentadores utilizam o beco como refúgio para a utilização de drogas  e a prática de sexo explicitamente, deixando muitos dos moradores chocados,  já que, por ironia do destino, 85% dos moradores aqui da avenida são evangélicos” relata.

Mas nem só os adultos estão sujeitos ao incomodo, Roberta fala que também é difícil receber visitas. “Pior ainda para as famílias que tem criança, já que fica impossível fazer uma festa de aniversário, pois, muitos dos pais não permitem que seus filhos prestigiem o coleguinha para não serem obrigados a ver homem com homem e mulher com mulher se beijando além do consumo da maconha que chega a deixar você tonto só com a fumaça”, explica.

Em meio à confusão sonora causada pelas várias músicas que tocam ao mesmo tempo naquele pequeno espaço, um grupo de ativistas contra a homofobia, circula entre os transeuntes, segurando a bandeira de um partido e uma enorme bandeira com um arco-íris, eles passam entre as pessoas distribuindo panfletos e adesivos contra a homofobia.

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Pela Igualdade; Contra o Preconceito

O BA – abreviação de Beco dos Artistas – serve como ponto de encontro da classe teatral da Bahia. Foi como tudo começou. Quando artistas após suas apresentações no TCA iam para comemorar e trocar idéias sobre os espetáculos. Hoje, jovens de todas as classes, raças e idades freqüentam a localidade. Porém diante de todo esse panorama existe um contraste marcante, que transita no mesmo lugar. Nem só de clima de paqueras vive o Beco. Olheiros vigiam os freqüentadores a todo o momento. Tem que se prevenir e tomar cuidado para não ser roubado ou sofrer algum tipo de violência. O local é freqüentado por todo tipo de gente. De ambulante a intelectuais. Até mesmo por equipe de reportagem. A qual saiu “fugida” do local, acompanhada por um segurança, pois determinados olhares nas bolsas e câmeras não eram positivos.

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