Um dia de Travesti

Por: Vanessa Nédia, Marcus Carvalho, Diego Porto e Vilma

“Me escondia de meu pai para que não percebesse o que eu fazia com meu corpo.Um dia ele me viu levantando da cama, sem querer viu meus seios já crescidos ,rasgou minha blusa para não ter duvida do que estava vendo e em seguida me colocou para fora.” Foi assim, com os olhos cheios de lágrimas e visivelmente tensa, que a travesti Pamela Close, como é conhecida na noite de Salvador, descreveu todo o preconceito sofrido por ela desde muito nova. Queríamos passar um dia inteiro e ver quais são as dificuldades e situações no seu dia-dia. Marcamos de nos encontrar no shopping Iguatemi um dos mais movimentados da cidade. O primeiro contato foi aparentemente normal até o integrante de a equipe chegar com toda intimidade e um cumprimento bem sinalizador “E ai amiga, poxa você está um arraso, amei a bolsa!” disse Diego. Conversamos na praça de alimentação e Pamela abriu seu coração. Com seu jeito peculiar de falar foi descrevendo sua vida da infância até a adolescência. Ficamos abalados com as revelações e foi esclarecedor para entender o mundo dos travestis. Este sofrimento normalmente vem acompanhado do preconceito social e da violência por parte de grupos homofóbicos, o que justifica o alto índice de homossexuais, incluindo travestis assassinados todos os anos na Bahia e no Brasil.

Na metade do século XX o travestismo era considerado crime, porém hoje as travestis já podem andar pelas ruas mesmo que ainda não sejam totalmente aceitas no convívio social. Na sociedade, existem regras que tem como função orientar e enquadrar os indivíduos em seus padrões de comportamento. Alguns países já incluem os travestis dentro desses padrões sendo considerados cidadãos normais. Na Suíça, por exemplo, as transexuais podem mudar o nome em seus documentos oficiais.

Assim como Pamela Close, diversos homossexuais brasileiros sofrem preconceito e discriminação ao optarem por adotar uma personalidade feminina, vindo a se travestir, o que aumenta também o índice de casos de violência sofridos contra essa parcela da população.

No nosso encontro pedimos a Pamela para passearmos com ela e seus 15 cm de salto pelo shopping. “Claro vamos agredir tudo, e tem mais vou te levar nas boutiques onde me produzo.” aceita Pamela. Suas condições é a das melhores, pois, a primeira loja que entramos era de grife. “Oi meninas! O que tem abalando aqui.” rir Pamela. A compra de um vestido e um cinto custou nada menos que R$ 389,00 e satisfeita sai da loja. Sua presença nos corredores e lojas não passas despercebida, as variadas formas de curiosidade, ou até meso preconceito. “Já estou acostumada, foi isso que eu escolhi e tenho que relevar esse tipo de situação desconfortável” relata Close.

De acordo com uma pesquisa realizada pelo Grupo Gay da Bahia (GGB), no ano de 2007 no Brasil foram assassinados 122 homossexuais e travestis, sendo um a cada três dias. Um aumento de 30% em relação ao ano de 2006. Desses assassinatos 70% gays, 27% travestis, 3% lésbicas.

Ainda de acordo com a pesquisa, no Brasil, o risco de uma travesti ser assassinada é 259 vezes maior do que um gay, sendo que o estado da Bahia foi considerado o estado mais violento, com 18 assassinatos e o Nordeste a região mais perigosa: um gay nordestino corre 84% mais risco de ser assassinado do que no Sul e Sudeste. A maioria das vítimas tem entre 20 e 40 anos. Predominam entre as vítimas, as travestis profissionais do sexo, professores, cabeleireiros, ambulantes.

Os olhares e buchichos eram muitos e não paravam de surgir, alguns até apontavam e davam risadas. Até para nós que estávamos acompanhando a fonte era desagradável. Ao mesmo tempo em que isso acontecia, Pamela parava e falava com quase todo mundo notava-se que era uma pessoa de boa relação interpessoal. Sua vaidade excessiva cobra de sua renda mensal quase R$ 2.500,00, por isso não demoramos muito lá ela já tinha uma hora marcada no esteticista na Barra.

Fomos de carona no seu carro de marca estrangeira e muito bem equipado. No caminho Pamela contou fatos que aconteceram em sua vida e até mesmo as marcas físicas e psicológicas deixadas. Pamela relata que realizou uma cirurgia na panturrilha, numa clinica clandestina onde não morreu por pouco. “Peguei uma bactéria e fiquei meses internada. Hoje tenho a responsabilidade de procurar um bom profissional”, esclareceu a travesti. Mostrando o local da cirurgia, com certo ar triste e emocionado, como se naquele exato momento rememorasse todo o período de internação que passou no hospital até se recuperar totalmente da infecção.

No meio do caminho, Pamela Close, já aparentemente um pouco mais calma e a vontade. Apesar de estar agitando freneticamente os cabelos para um lado e para o outro, explicou que atualmente se acha vitoriosa e o espelho para outras travestis e se considera uma pessoa feliz por possuir as formas que sempre desejou. “Passei por vários procedimentos cirúrgicos, fiz nariz três vezes, afinamento facial, silicone nos lábios, depois me arrependi e tirei a dos lábios” acrescentou a travesti.

Quando começou a tomar hormônios à primeira mudança que notou em seu corpo foi o desenvolvimento dos seios. “Eu ia á praia de camiseta enquanto a maioria dos meus primos ficavam sem camisa e usavam sunga,” explicou. “Me escondia de meu pai para que não percebesse o que eu fazia com meu corpo.

Não só o preconceito marca a vida das travestis, mas a dificuldade de se ingressar no mercado de trabalho. Muitas por não completarem os estudos devido aos preconceitos enfrentados dentro da própria escola e até pelos próprios educadores, vão para as ruas onde, para sobreviver, são obrigados a deformar seus corpos e vendê-los a qualquer preço. Por serem alvos de playboyzinhos, clientes violentos e até da própria polícia, são obrigados muitas vezes a agir como marginais, aprendendo a manejar o estilete para se defender dos que insistem em ameaçá-las.

Em virtude disso o número de travestis que chegam a entrar numa faculdade, trabalhar como professores ou gerente comerciais, por exemplo, é bem inferior ao número de travestis que exercem a prostituição. Segundo o Presidente do GGP, Marcelo Cerqueira, enquanto os gays são assassinados, sobretudo dentro de casa, a facadas ou estrangulados, os travestis em sua maioria são executadas na rua, a tiros e também por motoqueiros. “Com relação aos assassinos, 80% deles são desconhecidos e 65% são menores de 21 anos” ressaltou Marcelo Cerqueira, acrescentando ainda que o Brasil seja o campeão mundial de crimes homofóbicos, com mais de 100 homicídios por ano, seguido do México com 35 e Estados Unidos com 25.

Assim chegamos ao salão, Pamela nos apresentou a todos e iniciou em uma cabine sua depilação semanal, “Faço tudo perna, barriga, braço, bigode as partes intimas… tudo que tiver algum rastro de pêlo, por isso faço a laser para diminuir” diz a travesti. Em meio da sessão perguntamos: Como consegui viver com um poder aquisitivo tão alto? Sem exitar contou sua história profissional desde que era adolescente e saiu de casa. Segundo ela, devido ao preconceito social que a impedia de se inserir no mercado de trabalho, viu-se obrigada a se prostituir na orla de Salvador, mais precisamente na praia de Patamares.

“Passei noites e noites, sendo obrigada a fazer coisas que nuca quis fazer, como experimentar drogas, para satisfazer os clientes que afinal de conta estavam pagando” relatou ela, com certa tristeza no olhar. Sofreu agressões por parte de outras travestis por inveja e passou a viver como animal em busca de sobrevivência mendigando por sexo barato.

Nessa busca pelo corpo perfeito, os travestis recorrem muitas vezes a clínicas clandestinas e falsos cirurgiões com promessas de um corpo belo e feminino, até chegar ao ponto de fazer aplicações de silicones industrial o que vem a causar deformidades no corpo causando danos irreversíveis à saúde quando não as levam a óbito.

Logo após a sessão de depilação foi o momento de cuidar de seus cabelos e unhas. Perguntamos a ela se ela se produz toda semana e se esse custo compensa. Ela gritou “Claro!” prolongando a voz, os clientes pagam bem e por isso eles querem coisa boa. Qual a faixa etária de seus clientes? “Pode-se dizer que maduros, mas têm jovens também” afirma Pamela. Todos os funcionários do salão se divertem com o jeito irreverente e conquistador. “Adoramos a presença dela aqui, nos traz alegria” diz Guel seu cabeleireiro.

Nos bastidores juntamente com Diego ela relatou algo surpreendente. “Eu tomo muitos cuidados para manter o corpo e a estética feminina um deles é ter gozar apenas uma vez por mês, porque libera excessivamente o hormônio masculino e acaba com minha produção” relata. Após todo o retoque de beleza fomos convidados a percorrer por alguns pontos de prostituição onde ela já tinha trabalhado. Carlos Gomes foi o local escolhido, ficamos apreensivos, mais queríamos ver de perto todo esse conflito dos homossexuais. Já era noite e não foi difícil encontrar nos pontos estratégicos e delimitados por elas mesmas.

Antes de encostar o carro Pamela foi explicando o ambiente, as técnicas e conhecia muitos daqueles travestis. Paramos em frente a um travesti de mais ou menos 1,90m lábios carnudos de cor berrante roupas pequenas e insinuantes e um salta de quase 12 cm. Pamela cumprimenta a conhecida “Oi menina, e ai? Trouxe uns colegas para te entrevistar, querem saber do babado todo” sorrir as duas. Ela responde “Já disse que nada é de graça, mas estou vendo que tem uns do babado ai né?”.

Na Avenida Carlos Gomes perto de um bingo, que funciona ilegalmente, ela se acha dona de tudo essa é Skarlet Horrara de 29 anos. Na conversa sentimos a diferença nítida de uma para outra a forma de falar, se vestir, tratamento físico. Perguntamos quantos clientes ela conseguiu ao dia, ela respondi, com um ar de desânimo “O movimento está fraco, mais dá para tirar uma mereça, antes um do que nenhum”. Perguntamos também quais as modificações que ela tinha feito do corpo. “Tomo meu suco ‘GAMI'” (hormônio) que me deixa assim gostosa, já apliquei um produto similar a silicone na boca, peito e perna” afirma Skarlet. Pedimos um resumo da trajetória dela da adolescência até como atual prostituta.

Natural de Salvador, Skarlet nasceu como Antônio Carlos Nascimento, registrado com o sexo masculino e cinco irmãos. A sua infância foi muito difícil, marcada pelas dificuldades financeiras e problemas familiares. Ainda criança, foi adotado pela avó materna e nunca conheceu seu pai. Quando tinha 16 anos começou o processo de transformação de seu corpo, pois se achava infeliz em ter uma identidade que não era a sua tendo aprendido desde cedo que o homem era feito para a mulher e a mulher feita para o homem. Insistiu por esse sonho, começou a tomar hormônios para assumir as formas femininas, em meios as dificuldades que enfrentava foi deixando sua identidade masculina de lado e incorporou o travesti Skarlet Horrara. Porém Skarlet, como gostava de ser chamada, não sabia que sua vivência e expressão sexual seriam reprimida de uma forma tão violenta. Por duas vezes foi agredida por grupos de homens que assumia não gostar de gay e travesti sofrendo serias lesões no corpo e no rosto.

Na escola onde estudou foi descriminada por colegas e parte dos educadores, a pressão foi tanta que nunca conseguia chegar ao final do ano letivo, parando os estudos na 8ª serie do ensino fundamental. A partir daí teve alguns empregos mais nada muito certo nem que sustentasse suas dívidas. “Estou hoje aqui por necessidade, mas sempre que posso procuro sair daqui” emocionada relata.

Saímos de lá e fomos a casa de Pamela, com muita paciência ela nos mostrou como ela entra em contato com seus clientes e como funciona a rede de pedidos. Seu computador se tornou sua grande ferramenta de trabalho e com ele os contatos são confirmados. Além de seus celulares que dois deles são particulares para receber propostas e telefonema da rede. O que seria essa rede? São contatos entre as travestis e empresários que encaminham os clientes de acordo com afinidades e gostos. “Essa foi a melhor coisa que me aconteceu, tenho segurança no meu trabalho e só me envolvo com pessoas de alto escalão” diz Pamela. Não poderíamos saber qual eram os nomes até porque seria mais uma informação que poderia nos reder uma grande reportagem ou até mesmo uma matéria investigativa.

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