Cláudia Leite não quer um filho gay

Milton Cunha, Porto da Pedra
Opinião

Rio de Janeiro 1/12/08 – Curto e grosso: Cláudia Leite não quer um filho gay como eu, porque gay sofre muito. Sem problemas, eu também não quero uma filha gonçalense imitando baiana, clone eterna da original e verdadeira estrela morena, de quem ela será para sempre, sombra. É que este tipo de menina hetero sofre muito. Bobagens à parte (o que atesta o nível de inteligência da argumentação), o fato é que querer filho gay, independente do nível intelectual, ninguém quer. E como não tem explicação plausível, é só preconceito mesmo, recorre-se as mais mirabolantes fórmulas de explicação. Exemplo: eu, Milton, não quero ter filho pedófilo nem espancador de mulher, nem “maníaco do parque”.
Como eu explico isso? Eu odeio esta gente, acho psicopatia deplorável. E, sinceramente, ela acha gay deplorável, porque só pode ser gerado na barriga das outras. Ainda na argumentação dela, o sofrimento gay, você conhece hetero que não sofre muito? Deus, os leucêmicos, os miseráveis infelizes no casamento que passam a vida a fingir, os sem-grana em condições desumanas de vida, os existencialistas que acham a condição humana um inferno?
O problema é querer tipificar nós gays com um sofrimento exclusivo, isto é tolice. Nosso sofrimento é a burrice humana que, hipócrita, acha que nosso sofrimento é maior que, por exemplo, o das mulheres hetero, grupo extremamente marginalizado pelo machismo irracional que as escraviza em dependência econômica doméstica. Com certeza nós gays, sofremos. Mas o que dizer de vocês, heteros, nesta carnificina à qual vocês se submeteram?
Tudo certo, tudo bom, vocês são os maiorais. Mas chegará o dia do juízo final, quando à vocês será cobrado justiça e amor, e não julgamentos de dar ou comer. Sofremos por estar neste tiroteio e pronto, como todo mundo. Também sofremos por nos sabermos indesejados por nossas mães (isto sim o tiro de misericórdia em nós). Porque o vizinho nos indesejando? Sinceramente, cagamos pra isso. Queremos é ser criados com afeto e noção de amor paternal, para depois, crescidos e gays amados pelos familiares próximos, irmos em frente dizendo: “não vem bancar pra mim o hetero resolvido que nós, gays, também viemos de uma família hetero e sabemos que só muda de endereço, meu bem!”.
Eu, feto gay, repudio tuas considerações. O que faz um feto quando se sente indesejado?
Se auto-aborta? Continua a gestação e parte para a luta? Fico pensando no sentimento dos fetos gays, que ouvem suas mamães dizerem “não desejo que meu filho seja gay porque vejo o preconceito que meus amigos gays sofrem, e isto não é nada bom”. Eu, feto gay, um dia declarado por minha mãe nestas bases de raciocínio pouco generoso e mandão que agora Cláudia encarna, só posso dizer que abandonei-a assim que pude. Porquê que minha mãe nunca me perguntou se mesmo gay, eu era capaz de uma amor imenso? Na sua torcida de não acreditar que eu era gay, minha mãe passou por cima da minha imensa capacidade de amá-la.
Sempre a vi só como uma mulher mãe que gostaria de fazer desaparecer em mim minha homossexualidade. Mas eu só queria que ela entendesse que, independente de macho, gay, ou fêmea, as criancinhas são lindas porque nelas o universo se revela encantador e esperançoso. Mas não adiantou de nada. Elas só queria saber se eu daria ou comeria. Agora que ela está morrendo e pede para eu perdoá-la, só consigo pensar que a desgraça não é a morte dela, é eu ter sobrevivido à isto tudo.
Mais fácil é bater as botas e dificílimo é continuar vivendo e ter que pensar em tanto desamor. Quantas mais terão que ser abandonadas pelo seus filhotes, porque serão mães que acham que tem o direito de legislar sobre o desejo do filho? Cláudias Leites-mamães à parte, é preciso ser Miltons Cunhas-filinhos, para falar de um outro ângulo, de uma outra visão. Indesejados, nascemos com este desejo homossexual, que não orgulha mamãe nem papai, e na explicação tosca deles, para o fato de não terem orgulho de nós, olhamos incrédulos para os imbecis genitores, com cara de “sinto muito, é isso e pronto, só me resta viver e morrer gay”.
Não adianta ir bem no colégio e tirar boas notas, não adianta ser bom menino, pois ainda assim alguns pais nos pedem (ou obrigam) a disfarçar, e parece que a hipocrisia os satisfaz mais que a verdade de transarmos com o mesmo sexo, felizes e realizados. Quem são estes senhores e senhoras que nos aniquilam, que em nome de uma proteção maternal e paternal, querem que não sejamos o que nascemos para ser? E pior que isto, torcem por tal ou tal sexualidade, como se isto fosse direito deles. Somos seus filhos, portanto universos independentes, e só cabe à nossos genitores, a torcida pela nossa felicidade. Em vez de declararem “quero meu filho pleno, bom caráter, capaz de um amor imenso”, tudo o que conseguem declarar é “ai, não, gay não, e não é por preconceito, não, é por pena do que eles sofrem!”.
Saiu de moda o antigo e assumido “prefiro assaltante que viado?”. Achava melhor esta frase. Escrevo tudo isto de madrugada, depois de encontrar Márcia Lávia, carnavalesca do Império Serrano, e, ao me apresentar seu filho gato adolescente, na festa de lançamento do cd dos Sambas de Enredo, na Cidade do Samba, quando elogiei o garoto pela beleza e por parecer descolado, a mãe declarou, em alto e bom tom, orgulhosíssima, “não, este é macho!”. E aí parei para pensar: “quantas mães gritariam aqui sobre o filho não macho, o gay?”.
Nenhuma. Macho significa a resolução da dor. Vai comer todas e portanto será bem resolvido, bacana. Se gay fosse, iria passar por todo o calvário que todos os gays amigos destas mães passam. Mas vem cá, não é um calvário ser apresentado pela mãe orgulhosa como macho? O que isto subentende?
O que isto embute? Deus que me livre ser macho nesta terra de machos pit-boys que espancam humanos em boates, que puxam os cabelos das meninas com uma indelicadeza dignas de brucutu. Será que é o raciocínio destas mulheres que tem levados seus meninos à esta monstruosidade de comportamento com as fêmeas?
Portanto, aproveito esta coluna, para dizer para a deslumbrante mulher (e não a artista) Cláudia Leite: não espera daqui à sessenta anos para pedir perdão para teu filho.
Assim que ele nascer, bate a descarga em todas estas tuas declarações, e, a cada dia, reafirma teu amor incondicional e teu apoio à mais plena realização que um humano pode almejar, que é ter caráter, ter espírito fraterno e saber que, transando com árvore, parede, periquito ou papagaio, a grande viagem humana é, através da própria vida, libertar o espírito dos tolos preconceitos que tentam nos reduzir à meros orifícios. A alma não é pequena, e, portanto, tudo valerá à pena.
Mãe é aquela que pede saúde e paz para sua criança. O mais, pertencerá ao insondável território do desejo. Inclusive daqueles desejos que dizem ser Ivete Sangalo a única, original, definitiva e verdadeira bombshell baiana. Tudo mentira. Tem espaço para tudo e todos. Até para os não desejados. Que a Nossa Senhora do Bom Parto te proteja, querida. Mesmo que ela seja gay, ou hetero, ou preta, ou índia! – Publicado originalmente no Jornal O DIA, RJ.

Fonte: Grupo Gay da Bahia

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