O adolescente homossexual na dinâmica escolar

Por: Janaina Foleis Fernandes [JANAINA_F]

Esse artigo é parte de um trabalho de conclusão de curso para formação de psicólogo, cujo título é Relação da família com adolescentes homossexuais do sexo masculino.
Dentro do ambiente escolar o adolescente homossexual sofre com a dificuldade de encontrar grupos de iguais, além do preconceito e dificuldades de aceitação.

Quando encontram amigos na escola, correm o risco de perdê-los, pois geralmente os colegas são rotulados também como homossexuais e tendem a se afastar para evitar comentários e o preconceito por parte dos demais alunos da escola.

Segundo FARIAS(2004), é muito difícil ser julgado e condenado por um grupo. Diante de situações de não aceitação e exposição pública de seus sentimentos, o adolescente homossexual pode se deparar com sensações de inadequação e rejeição, provocando assim muito sofrimento e uma vontade de mudar sua condição homoerótica, que vem historicamente sendo definida como “anormal”.

Existe ainda uma dificuldade grande em admitir que homossexuais sejam normais e produtivos, além de uma dificuldade em entender pessoas com práticas sexuais diferentes das nossas (PINTO, 2002).
Segundo LOURO (2000), o medo de ser descoberto, as gozações permitidas e a censura insinuada ou explícita promove uma verdadeira segregação desses jovens, muitas vezes produzidos pelos próprios sujeitos, que sentem no isolamento uma forma de sobreviver.

Há a necessidade da escola atuar como um espaço de mediação e de acolhimento. FARIAS (2004) comenta que as relações no interior da escola, na maioria das vezes, não favorece à construção do sujeito e a criação de vínculos afetivos, tanto por parte dos alunos quanto pelos profissionais que trabalham na escola.

As relações de amizade e confiança estabelecidas na escola fazem parte da construção da subjetividade do adolescente. As dificuldades encontradas pelos adolescentes homossexuais dentro desse ambiente interferem diretamente na constituição de sua identidade, uma vez que a não aceitação faz com que esses adolescentes repensem sobre sua condição homossexual ou se marginalizem em uma tentativa de preservar sua condição diferenciada.
Há uma espécie de medo, onde a manifestação de simpatia ou a proximidade em relação aos homossexuais se constitui em um perigo. A heterossexualidade, embora percebida como uma inclinação natural, vê-se ameaçada e necessita ser assegurada por todos os meios (LOURO, 2000).
Dentro da escola, alunos e alunas não são sensibilizados a fim de serem solidários com seu colegas “diferentes”, sejam de minorias raciais, sexuais ou com necessidades especiais. Isso denota uma lacuna, uma marca que a escola legitima nas práticas pedagógicas ao não falar e criar uma invisibilidade sobre as diferenças (FARIAS, 2004).

A escola apresenta um papel importante no processo de socialização. É nela que os adolescentes passam grande parte do seu tempo e apreendem muito de seus valores sociais. É nesse espaço onde deveria haver um compromisso por parte dos profissionais em incentivar a aceitação das diferenças, uma vez que esse ambiente é freqüentado por uma vasta diversidade de pessoas, cada qual com suas questões, pensamentos, valores e desejos. Um ambiente que se faz plural pela singularidade dae cada individuo que a compõe, porém, o que se apresenta é o contrário, uma ambiente que faz cristalizar pensamentos e comportamentos preconceituosos.
É imprescindível aos profissionais da escola uma reflexão a respeito de tabus e convicções que possam existir sobre a sexualidade, para que não sejam meros reprodutores de discursos pensados sob a ótica anátomo-fisiológica, que os distanciam da sexualidade (FARIAS, 2004).

A associação da sexualidade ao prazer é deslocada em favor da prevenção dos perigos e das doenças. Nesse contexto que centraliza a reprodução, os homossexuais ficam de fora da discussão. A escola não contempla a possibilidade de uniões afetivas e sexuais entre indivíduos do mesmo sexo e muito menos a existência de famílias constituídas por gays ou lésbicas. A homossexualidade é negada, mas ao mesmo tempo vigiada (LOURO,2000).
A sexualidade que entra na escola, no currículo de educação sexual, está pautada na doença, problemas e perigos, totalmente desvinculada do prazer e da vida.

Apesar da maior visibilidade que se tem hoje sobre o tema, o preconceito permanece da mesma forma. Mesmo cientes da necessidade de se falar sobre a sexualidade em sua completude, a sociedade manifesta claramente o medo que sente da homossexualidade. Medo de que expor o assunto de maneira natural e positiva possa interferir na orientação sexual de crianças e adolescentes.

Sendo a escola uma instituição social que tem como função a formação de cidadãos, ela deve e pode iniciar a discussão sobre o tema. A escola deve ser fonte de conhecimento e desmistificação de tabus e preconceitos infundados.
Segundo PINTO (1999), chegamos em um momento histórico em que não faz mais sentido lidar com a sexualidade de forma velada; se quisermos um mundo mais maduro e mais esclarecido, não se pode dar preferência ao implícito em detrimento das explicações referentes à sexualidade.

A escola se apresenta ignorante quando não aprofunda tais questões, não adianta falar sobre o assunto se a forma de apresentá-lo estiver carregada de preconceitos , sem um preparo do profissional que se dispõe a falar.
O currículo escolar apresenta um silenciamento sobre a condição homossexual, que se manifesta em uma abordagem parcial da realidade, no estabelecimento de um tipo universal de sujeito (FARIAS, 2004).

A escola, juntamente com a família, se organiza de forma a “garantir” a formação de indivíduos heterossexuais (LOURO,2000).

Hoje o modelo escolar contribui para o silêncio e dissimulação de comportamentos homossexuais ], fortalecendo assim as crenças familiares.
O debate sobre a queda de tabus e preconceitos é uma forma de explicitar a sexualidade em sua amplitude dentro da escola, permitindo, dessa forma, que as diferenças apareçam e sejam encaradas com naturalidade, além de formar novas gerações sem preconceitos e melhor informadas.

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